FREGUESIA DE VALHELHAS - MUNICÍPIO DA GUARDA
PATRIMÓNIO

 

  

PELOURINHO DE VALHELHAS

O pelourinho deste antigo Concelho beirão, na singeleza das suas pedras vetustas, atesta ainda, no presente, os privilégios da nobreza popular de Valhelhas. Ergue-se imponente na Praça Dr. José de Castro, defronte do edifício da Junta de Freguesia, antigos Paços do Concelho e antiga cadeia. É formado por sete degraus octogonais que servem de base e que vão progressivamente diminuindo até à plataforma, uma coluna de fuste inteiriça de granito de grão fino, octogonal, com cerca de 40 cm de diâmetro e 07 m de altura, um capitel anelado de secção octogonal, encimado por gola também octogonal que apresenta numa das faces a data de 1555, enquanto nos restantes lados se observa uma numeração romana quase apagada, lendo-se apenas LII e II; sobre esta gola apoia-se um segundo capitel, de secção circular que apresenta três anéis, sendo o superior mais saliente, constituindo o tabuleiro; o remate consistia originalmente em quatro pináculos bojudos sustentados por pequenas mísulas ornamentadas com meias esferas, mas faltam-lhe já dois desses pináculos; apresenta como coroamento um pináculo central, também bojudo e de maiores dimensões do que os laterais, assente numa base semi-circular anelada. De salientar que a importância dos Concelhos se traduzia também através da quantidade de degraus dos pelourinhos. O de Lisboa tem oito e o de Valhelhas tem sete o que comprova a grande importância deste antigo Concelho. O pelourinho de Valhelhas é considerado monumento nacional pelo Decreto n.º 23 122, DG 231, de 11 de Outubro de 1933 (IIP). Com quase 500 anos, apresenta-se altivo e robusto para poder contar os séculos como o Homem conta os anos, pelo que deve continuar a merecer desvelado carinho por parte de todos os Valhelhenses, para a nossa terra mostrar às gerações vindouras todas as glórias do seu honroso passado.


  

CASTRO LUSITANO

O castro de Valhelhas, situado num outeiro que se levanta perto da confluência da ribeira de Famalicão com o rio Zêzere, forneceu indicadores fundamentais sobre a forma como foi habitada inicialmente a povoação. Por se encontra praticamente destruída pelos Mouros e segundo a tradição, essa fortaleza (castro) foi restaurada por mandado de D. Sancho I, em 1187, quando nessa altura veio reedificar a cidade da Guarda e organizar a defesa da Beira-Serra. Segundo Martins Sarmento, que em 1881 estudou o castro de Valhelhas, no âmbito de uma expedição científica à Serra da Estrela, este povoado seria inicialmente lusitano. Assim terá sido, no início, mas é também certo que posteriormente se transformou numa fortificação de traçado e construção puramente romana, a julgar pelos vestígios arqueológicos subsistentes. Esta fortaleza era constituída por uma cidadela ou grande torreão, de traçado rectangular, com uma torre quadrada ou castelo, como ainda é designado, encostado à sua face norte, pelo lado exterior, e de uma cerca de muralhas envolvendo então toda a povoação. A posição em que foi edificada essa fortificação tinha um grande valor estratégico militar, uma vez que impedia a penetração através do vale do Zêzere até à bacia de Manteigas e à parte central da Serra da Estrela, tendo inclusivé travado a ofensiva das tropas de Napoleão, em 1810, durante a terceira invasão francesa. Hoje está completamente derrubada devido, em parte, ao embate sofrido aquando desses ataques. O tempo e o desamparo a que estas relíquias do passado foram votadas durante anos fizeram o resto. Aproveitando as muralhas ainda existentes, encontra-se ali actualmente o cemitério de Valhelhas.


 
 
  

CHAFARIZ DA PRAÇA

 

 

 

 

Fica a Poente da Praça Dr. José de Castro, com a sua face posterior encostada à parede de um prédio de granito, medindo uns seis metros de altura por três de largo. Na face anterior tem duas bicas equidistantes que jorram água constantemente para uma piazinha de uns quatro centímetros de profundidade que serve, para além de aparar a água, para sobre ela apoiarem os cântaros. A uns dois metros de cada lado do pedestal estão duas grandes pias de granito que recebem a água da outra piazinha, servindo para os animais ali beberem, embora hoje em dia, menos assiduamente. A frontaria é de granito amarelado com a cornija superior composta de ornatos diferentes que lhe dão elegância, beleza e até uma certa grandiosidade. Os cunhais, também artisticamente cinzelados, têm ornatos idênticos aos da cornija. Ao centro, fina e habilmente esculpido, tem o escudo da República e por baixo os seguintes versos de Correia Garção:
"Que eu desta Glória só ficarei contente:
que a minha terra amei e a minha gente".
O Chafariz da Praça foi mandado construir pelo Dr. José de Castro em 1912.


  

PONTE FILIPINA

A ponte sobre o Zêzere é construída em granito, tem quatro grandes arcos e a sua maior altura é duns doze metros, com cento e nove de comprimento, três e oitenta centímetros de largura, na entrada, vindo de Valhelhas para Belmonte, e na outra extremidade mede quatro metros e trinta centímetros. Há notícia de que foi Filipe III que em 1631 a mandou edificar, tendo sido arrematada por Paulo Roiz por 05 mil cruzados. Todavia, narrava a tradição que era obra dos romanos, mas é natural que ela fosse construída sobre a antiga que ali se encontrava devido a que decorridos tantos séculos o leito do rio se teria elevado de tal forma que já não dava passagem às águas de caudalosa corrente. Na época dos romanos o vale era estreito e o leito do rio profundo, especialmente no lugar da ponte. O assoreamento neste lugar é de tal ordem que o arco encostado à margem esquerda que designamos de primeiro, e por onde passa permanentemente a corrente do rio, mede onze metros de altura bem como a metade do segundo que também faz parte do leito. Porém, a outra metade do segundo arco e o terceiro e quarto medem respectivamente: dez metros; oito metros e dez centímetros e sete metros e dez centímetros. Todavia este assoreamento verifica-se apenas no decorrer de três séculos, sendo ainda precioso contar que o vale subiu pelo menos uns dois metros no local da ponte. Agora, se considerarmos que decorreram mais de 1.500 anos desde a dominação romana até aquela data e admitirmos a subida do vale progressivamente e na mesma proporção devido aos fenómenos da natureza, chegaremos à conclusão que todo o vale devia estar mais baixo uns 25 ou 30 metros. A antiga estrada romana bifurcava-se nesta zona, indo um ramo à esquerda para Gonçalo, Centucelos e Belmonte e outro à direita para Passos, Sarzedo, Teixoso e Covilhã. Actualmente esta ponte está cortada ao trânsito existindo ao lado uma nova ponte, com dimensões muito superiores, construída por volta de 1978, e por onde se faz a fluidez do trânsito entre as duas margens.


 
 
  

IGREJA MATRIZ DE SANTA MARIA MAIOR

 

 

É um templo regular muito antigo, com um altar-mor e dois laterais, originais, em graciosa talha dourada, estilo do século XVI. Os altares laterais são o de Nossa Senhora do Rosário, à direita, e o Altar das Almas, à esquerda. Existem ainda mais dois altares laterais, simples mas elegantes, de construção mais recente, que são o do Sagrado Coração de Jesus, à direita, e o de Nossa Senhora de Fátima, à esquerda. No retábulo do altar-mor estão as armas dos Castros, de seis arruelas, e o mesmo brasão está no ângulo Poente do campanário, o que prova que a estes fidalgos pertenceu o senhorio de Valhelhas e a alcaidaria do seu castelo. Tem do lado Sul uma ampla sacristia que comunica com o adro. Tem um púlpito de granito, bastante tosco, com ornatos em relevo, sarapintado com cores vivas que o tornam ainda mais tosco. Em baixo assenta numa coluna de pedra e numa faceta tem a seguinte inscrição: "Anno Domini Erectum 1674". Por trás do altar-mor, do lado esquerdo, são ainda visíveis alguns vestígios de uma pintura primitiva (fresco) que representa a anunciação do anjo a Nossa Senhora. Ao fundo e à direita, elevando-se um metro acima do nível do soalho fica, sobre uma plataforma com dois degraus, a pia baptismal, grande, de granito cinzelado, apoiada sobre uma coluna da mesma pedra e coberta com uma tampa de madeira. Por cima, a uns cinco metros, apoiado sobre duas colunas de ferro, fica o coro, para o qual se sobe por uma escadaria exterior. Na parte inferior, a uns doze metros da entrada principal e de cada lado, estão dois confessionários. A Igreja, cuja construção é vulgarmente atribuída ao Cavaleiro da Ordem do templo, será de fundação anterior, como se pode depreender de uma inscrição latina, gravada no exterior e do lado Poente, sobre a porta lateral, que diz: "Mense Martio Milesimo - Ducentesimo Haec Eclesia Fuit Sacrata" - "Esta Igreja foi sagrada no mês de Março do ano de 1200" (da era de César e portanto no ano de 1162 da era de Cristo).


  

CAPELA DE SÃO SEBASTIÃO / SANTO ANTÃO

Situada no Lugar dos Barreiros, a capela de São Sebastião, construída em 1577, hoje mais conhecida por Santo Antão, confina de Nascente com a antiga estrada romana que ligava Valhelhas com Barrelas, Folgosinho, Famalicão, etc. Fica a uns trezentos metros da Praça Dr. José de Castro, na margem direita da Ribeira de Famalicão, que corre a uns 150 metros. É pequenina, tem um alpendre bastante gracioso com três entradas, diversas colunas de pedra e com o chão em calçada à antiga portuguesa. Foi remodelada em 1999, tendo sofrido algumas descaracterizações. Consta que em 1957 teria também sido totalmente reparada. Na frente e na rectaguarda tem dois largos onde se realizava antigamente o mercado dos animais e se jogava a péla após a quadra da Quaresma. No largo da frente, à esquerda, havia uma fonte romana de mergulho, que se encontra hoje coberta, e uma grande pia para os animais beberem. Foi a única fonte da povoação até 1912.
CAPELAS QUE DESAPARECERAM - Além da Capela de São Sebastião e da Capela do Divino Corpo Santo, Valhelhas teve ainda as seguintes capelas, hoje completamente desaparecidas: a de São Pedro, na encosta da estrada que vai para a Guarda; a de São Miguel, que ficava do lado esquerdo da estrada florestal da Cabeça Alta e confinava com a que segue para Manteigas, que ali vai sobre o traçado da antiga estrada luso-romana; a de São Domingos, construída junto da antiga estrada romana que seguia para Centucelos, Gonçalo e Belmonte, na direcção da ponte do Zêzere e uns duzentos metros desta; finalmente a de Santa Margarida, que ficava também junto da referida estrada romana e na encosta da montanha, a uns 100 metros da estrada actual, próximo da Boiça e sobranceira ao amplo e pitoresco vale do rio. As imagens de São Pedro, São Domingos e Santa Margarida, que recolheram à igreja matriz, estão em bom estado mas a de São Miguel já não existe.


  

CAPELA DO DIVINO CORPO SANTO

Antiga albergaria, à qual D. Sancho I fez doação importante, foi transformada no século XV em capela da Misericórdia. Hoje é utilizada também, excepcionalmente, como casa mortuária. Pela sua situação, na actual Rua do Castelo, tudo leva a crer que devia estar junto ou mesmo dentro das muralhas do castelo. No pequeno largo defronte dela e a uns 60 centímetros abaixo do nível da rua, soterrada, existe uma calçada de pedra miúdinha, muito semelhante à de Conimbriga, que se pensava ser de origem romana. Porém, há cerca de 40 anos, a pedido do Dr. Alípio da Rocha, foi ali estudá-la um ilustre arqueólogo, Dr. A. Ricardo Belo, que a classificou de portuguesa, possivelmente da época medieval, e a achou muito interessante, bastante original e digna de ser conservada. No altar-mor, que é de talha dourada, está a imagem muito antiga e tosca de Jesus Cristo, semelhante a uma de Santa Maria Maior, padroeira da Freguesia, que há alguns anos estava na igreja e que parecia obra do mesmo artista. Na cúpula da capela-mor, bem decorada e colorida, lê-se a seguinte inscrição: «Per me reges regnant». Tem a data na frente, parte exterior, de 1503, que deve ser a da reconstrução e coincide com a criação das Misericórdias por iniciativa da raínha D. Leonor, esposa de D. João II, e com a época em que Valhelhas pertencia a D. Rodrigo de Castro. Ao centro da capela, do lado esquerdo, há um púlpito em pedra com toscos ornatos e que assenta sobre uma coluneta de granito. Tem no arco da capela-mor, da parte exterior, no alto e ao centro, as armas dos «Castro», 06 arruelas idênticas às existentes no campanário e na igreja, etc. Está ali guardado um elegante e esculpido sacrário, que deve ter pertencido a qualquer das capelas que o tempo destruiu, feito de pedra calcária da região de Ançã, Coimbra. Isto revela que a povoação era bastante importante para nessa época conseguir receber de tão longe pedra da espécie mencionada. O sacrário compõe-se duma coluna de um metro e 20 centímetros de altura por 60 centímetros de largo, com ornatos, tendo em baixo e ao centro o espaço para o vaso sacramental e de cada lado da porta, a orná-la, inclinados sobre ela, dois anjinhos perfeitamente esculpidos, com 30 centímetros de comprimento. Consta que os franceses, aquando da invasão de 1810, teriam destruído grande parte do sacrário, principalmente a cornija, na esperança de ali encontrarem alguns objectos de valor. De dezenas de objectos que ali havia, somente o sacrário escapou, certamente por não lhe verem qualquer utilidade.


  

MARCO MILIÁRIO ROMANO

Quando os romanos conquistaram o termo de Valhelhas, que fazia parte da Vetónia, pelo ano 61 antes de Cristo, já ali encontraram um importante oppidum que transformaram numa fortaleza com a característica das suas construções castrenses, como acima foi referido. Mais prova a ocupação romana da povoação o facto de terem sido encontrados em Valhelhas três marcos miliários com as respectivas inscrições latinas. Dois foram encontrados  na grande via militar Braga - Mérida, no no troço Barrelas - Valhelhas. Barrelas pertenceu sempre ao termo de Valhelhas até à extinção do Concelho, em 1855. Um é dedicado ao Imperdor Tácito e o outro a Constantino Magno. Tendo sido estudadas as respectivas inscrições pelo Padre Eugénio Jalhay, em 1950, ficaram desde essa data a pertencer ao Museu Regional da Guarda. O terceiro foi encontrado na margem direita do rio Zêzere e é também dedicado ao Imperador Tácito, conforme leitura feita pelo Arqueólogo A. Ricardo Belo, em 1960. O facto de ser encontrado na margem direita do rio não prova que a sua localização original fosse essa, podendo ter sido transportado para ali, em épocas posteriores, com qualquer fim utilitário tal como marco de propriedade ou esteio de qualquer coisa (Os oito marcos encontrados antes, a Norte e a Sudeste de Valhelhas, são todos provenientes da margem esquerda). É uma pedra de granito, cilíndrica, terça parte de um marco miliário, faltando-lhe as duas ou três primeiras linhas da inscrição, tendo ao centro do topo um círculo escavado para qualquer coluna ou poste nele assentar. Tem as seguintes dimensões: altura - 0,60 m; diâmetro - 0,32 m; 0,06 m.

INSCRIÇÃO:

NI AY SS
ET CONS
TANTI
ET MAXI
MINI FO
RTISSIM
O

Segundo A. Ricardo Belo, a constituição completa da inscrição deve ser a seguinte:

DDDNNNN
DIOCLETIANI
ET MAXIMIA

NI AY SS
ET CONS
TANTI
ET MAXI
MINI FO
RTISSIM
O

LEITURA:

/Dominorum Nostrorum/Diocletiani/et Maximia/ni, Aug(ustorum) S(eniorum) et Cons/tanti/et Maxi/mini Fo/rtissim/o (por Fortissimi).

TRADUÇÃO:

Marco posto por ordem de, ou marco) dos nossos Senhores Diocliciano e Maximiano, Augusto Seniores, e de Constâncio e de Maximino, Fortíssimo (César).

Falta o título muitas vezes usado por Constâncio Cloro, NC, enquanto César - Nobilíssimo César.

Este marco permaneceu durante muitos anos a ladear a porta lateral da Igreja Matriz, conjuntamente com a Ara Funerária (ver abaixo). Todavia, por precaução, encontra-se actualmente no interior do edifício da Junta de Freguesia, onde pode, ainda assim, continuar a ser observado.


  

ARA FUNERÁRIA ROMANA

Este monumento funerário foi encontrado há alguns anos no adro da Igreja quando ali decorriam obras de terraplanagem. Tendo em conta a época da Ara (II século depois de Cristo) e local onde foi encontrada, tudo leva a crer que muito antes da construção da Igreja já aquele local era utilizado pelos Romanos para sepulturas, embora somente para pessoas categorizadas. As restantes seriam sepultadas próximo do Castelo, pois não tinham cemitério, visto que em 1912, ao abrir-se o valado para colocação do cano de água na rua que vai da Capelo do Divino Corpo Santo até à Praça Dr. José de Castro, foram ali encontradas várias ossadas. Tem as seguintes dimensões: altura - 0,78 m; largura - 0,30 m; profundidade - 0,20 m. A leitura e a tradução da respectiva inscrição foram elaboradas pelo Dr. A. Ricardo Belo e são as seguintes:

INSCRIÇÃO:

D. M. C.
PROCVLINVS
PROCVLISIBI
ETVXORIBVS
PIISIMIS
VALERIE. ET
AMABILIS
NVTRICI
FILIORVM
MEORVM
F. C.

Observação: cada linha ocupa, começa e acaba na mesma linha vertical, isto é, à simetria da inscrição.

LEITURA:

D(is) M(anibus) S(acrum) Proculinus Proculi, sibi et uxoribus, pussimis Valerie et Amabilis nutrici, filiorum meorum, f(aciendum) c(urativ).

TRADUÇÃO:

Consagração aos Deuses Manes. Proculino (filho) de Próculo, para si e esposas pussimas, Valéria e Amável (esta) ama dos seus filhos, mandou fazer (este monumento).


  

CONVENTO DO BOM JESUS DE VALHELHAS (artigo do jornal "O Interior")

FONTE

SOLAR DR. EMÍDIO PEREIRA DOS SANTOS

Em construção

Praça Dr. José de Castro 6300-235 VALHELHAS
275487372
jfvalhelhas@clix.pt